Wednesday, June 15, 2011

.



"Foi difícil chegar a ti.
Muitas perguntas, muita gente pelo meio.
Julguei que o destino não nos queria.
Que nunca saberias que existo.
Foi difícil falar contigo.
Estar à tua altura.
Fazer-me ouvir.
Saber coisas tuas.
Explicar-te porquê tu.
Perguntar-te porquê eu.
Tiras as dúvidas todas.
Tocar-te no rosto, se me deixares.
Olhar-te muitas vezes nos olhos.
Pagar-te o jantar.
Fazer-te bigodes com a espuma do café.
Imitar a tua voz quando falas ao telefone.
Rir-me das tuas histórias.
Estar apenas.
Disfrutar de ti. Chamar-te princesa.
Babe não, que é foleiro.
Opinar sobre o teu vestido.
Perguntar-te porque escolheste essa cor para as unhas.
Como consegue o teu cabelo ser tão claro.
Falar-te das minhas tatuagens.
Escondê-las daquelas mães que tratam os filhos por você.
Estar somente ali.
Não te pedir nada.
Foi tão difícil chegar a ti.
Devia escrever-te uma canção.
Uma poema não, que é foleiro."

Wednesday, June 1, 2011

Crónicas ao acaso III - Paris



“Querida Henriette,

Passou muito tempo desde a última vez que nos vimos.
Tempo a mais diria.
Cruzar-me contigo foi cruzar-me com o melhor de mim próprio. Um lado que eu mesmo desconhecia.
Podia escrever-te para te dizer que tenho saudades. Que sinto a tua falta.
Podia relembrar-te o que passámos juntos. Podia falar-te de Paris, claro.
Da tua cabeça no meu ombro, sempre.
Da casa daquela tua amiga esquisita que só comia peixe de rio. Do vinho que o teu avô te deixou, e que quiseste partilhar comigo.
Podia, claro, dizer-te que é o teu corpo que procuro em cada corpo que vou conhecendo.
Que, mesmo hoje, gostava de ver-te. De saber de ti.
Podia confessar-te que guardo, intactas, todas as tuas cartas.
Que as tuas palavras ainda me são caras. Que imaginar-te com outro custa.
Que lhe caiam os dentes todos.
Podia dizer-te que rasguei a própria pele para eternizar a tua expressão de vida.
Il fault que jeunesse se passe.
E isso justificava a merda que fazíamos juntos.
Podia, como tantas vezes, falar do tamanho do salto dos teus sapatos, que nunca me meteram medo.
Era perto do céu que eu te queria.
Podia deixar que fizesses pouco do meu terrível sotaque francês. Lembrar-te a forma como os teus amantes me olhavam. De como o teu pai queria partir-me um braço.
Podia cantar para ti aquelas músicas todas. Repetir um dos meus cozinhados horríveis.
Podia falar-te da tua janela por onde entrei e saí tantas vezes. Podia dizer-te que estás presente.
Que me lembro de ti sempre.
Que te vejo em todo o lado.
Podia tentar fazer diferente, como nunca tentei enquanto estiveste perto.
Mas o que quero mesmo é escrever-te.
E um dia ouvir-te de novo.”